Observ.
Entrevista
Olá, Pedro, fala-me um pouco sobre ti.
Olá. O meu nome é Pedro Pereira, sou o OBSERV., arquiteto e pintor e considero-me um experimentalista.
Qual é o significado do OBSERV. ?
“Olhar, com os olhos de ver”. Vemos as coisas, mas não olhamos e nesse sentido o OBSERV. nasceu da junção de duas palavras, observar e absorver.
O que quero dizer com isto, é que não usamos
o processo de análise e não observamos ou sentimos. A velocidade a que tudo acontece e sem analisar, faz-nos ser superficiais. Passamos de capa em capa, mudamos de tema, sem gerar raciocínio crítico sobre o conteúdo.
Mas como é que tu interligas essa forma de olhar para uma postura experimentalista?
Observar e absorver é uma forma de analisar as coisas, relacionar vários temas, várias referências e sentimentos, que vi ou vou sentido e naturalmente vou construindo a minha realidade. No meu processo criativo procuro dissecar um pouco isso, tento chegar à minha percepção mais pura, para torná-la em algo de material, de forma genuinamente experimental.
Observar e absorver referências e produzir de forma experimental?
Todos nós temos referências, mas também temos um estado de espírito crítico e artístico.
Por exemplo, tenho uma história muito engraçada, na forma como conheci a minha maior referência, na forma como conheci o trabalho de Wassily Kandinsky. Lembro-me que estava no Secundário e numa das aulas do 10o ano, um professor deu-me uma nota com a explicação de “só não lhe dou mais, porque isto parece o estilo espontâneo de W. Kandinsky”. Só que eu não conhecia Kandinsky! Fui ver e adorei o abstracionismo, a composição, o relacionamento com a música, os movimentos fluidos, mas ao mesmo tempo geram harmonia… – Por isso é que costumo dizer que as minhas peças são tipo jazz. Dou as pinceladas e tudo acontece, tal como o ritmo da música jazz, quando os instrumentos entram e todos trabalham em conjunto, sem regras.
Como te posicionas, sendo um arquiteto e um pintor, ou seja a arquitetura e a pintura complementam-se na tua forma de pensar e agir?
Complementam-se! Mas…Quando pinto, tenho a sensação que sou mais livre. Procuro na pintura uma certa liberdade que a arquitetura não me oferece. Porque quando fazemos arquitetura, temos condicionantes, regras e medidas. Quando pinto, não tenho regra nenhuma e tento meter cá para fora alguma coisa de orgânico e íntimo.
A arquitetura também pode ser orgânica, mas tem que responder a algo, a um problema, a um programa… A pintura não!
Eu não faço pintura para ninguém, faço isto para mim. Não faço para um cliente, que gosta dessas cores, que quer este tipo de programa, que quer uma sala, dois quartos, uma lareira numa determinada área. Sou, eu e o que me rodeia. Já isso, na arquitetura não acontece.
Mas…Quando finalizo as peças, costumo procurar uma explicação. A harmonia nas peças fazem-me sentido, mas são regras estéticas que eu próprio criei e aí sim, o facto de eu fazer arquitetura, tem de certeza um grande impacto em mim e no que produzo.
Sentes que as tuas peças respondem ao teu ato criativo?
Sim, mas não. Depois de finalizar, tenho o hábito de me questionar, a mim e às minhas peças. Procuro ou ponho em causa o seu significado.
Que relação existe, entre mim e a peça? A mente divaga…Mas o que são? É abstrato? É orgânico ou uma regra orgânica? – Tudo adveio de um movimento livre, certo !? – Assim, a peça finalizou, mas a mente continua… Então talvez, a peça não respondeu, mas gerou mais perguntas.
São peças que surgem de um imaginário, por isso é que te geram tantas perguntas?
Se é a minha imaginação…? Pergunta
difícil, porque eu acho que é o meu inconsciente! Estou simplesmente a divagar sobre mim próprio e a tentar encontrar representações abstratas, sobre sensações e impulsos, por isso eu acho que é uma tentativa de meter o meu inconsciente cá para fora.
O que é que eu sinto? E depois, como é que eu represento um sentimento em forma de impulso?
Como pinto tristeza ou alegria? É um facto, que podemos representar os sentimentos com uma pessoa a chorar ou rir, mas é uma imagem recriada por nós, eu tento expressar uma percepção do envolvente ou sentimento em forma de impulsos, através de um médio numa tela, papel ou parede.
Portanto, é um processo inconsciente, ao ritmo de impulsos?
Posso dizer que cada peça minha, torna-se uma busca interior. Olhando para cada peça, consigo detetar de imediato o estado e fase de espírito, os impulsos que foram levados, ao ritmo de uma emoção. É engraçado, porque quando alguém leva uma peça minha, fico com a sensação que levaram um bocado de mim, da minha pessoa.
Mas como é que um observador olha para uma tela, sem preconceitos, sem análises superficiais do gosto e não gosto, mas que consiga entender, desvendar ou interpretar o que tu pretendes comunicar?
A necessidade de explicar não deve existir.
Uma vez, numa exposição colectiva em que participei, uma senhora veio ter comigo, porque olhou para uma peça minha e disse-me, – “Eu sei o que pretende comunicar, sinto que é um período de transformação! E eu estou a vivê-lo! A sua pintura faz sentido para mim.” – e comprou-me a tela! Por isso, a pessoa observa, absorve e leva um bocado de mim.
Sentes que o teu processo criativo não se vai esgotar, desde que estejas sempre a exprimir os teus sentimentos?
É difícil expressar-me, de meter os sentimentos cá para fora. Porque agarrado a um sentimento, veem uma bagagem deles. E assim torna-se imprevisível o tempo de produção entre cada peça e a minha capacidade para o fazer.
Já houve momentos em que não tinha vontade, não tinha inspiração e por isso não fazia sentido pintar. Nessa perspetiva, diria que se esgota…
Obrigado OBSERV. por teres aceite o nosso convite, por teres partilhado as tuas dúvidas e sentimentos em forma de arte, sob o olhar cauteloso do Distante.










